Friday, March 30, 2018

UMA PAIXÃO SEGUNDO MATEUS








E chegaram à montanha do meio-dia

Elevaram-lhe o coração como um ninho
para o mundo 
E crucificaram-no ali, as palmas das mãos
Tingiram-se de sangue sob os cravos
Os pés enfim descansariam
E os seus lábios então silenciosos
Rejeitaram a mirra com o vinho, viu
Lançarem dados para dividir os seus vestidos

A sua respiração rasgava ainda o peito nu
Já na morada dos seus olhos a luz débil
E viram-no como ovelha vigilante
Na hora de morrer, subiu como raiz
Da terra sequiosa, sem beleza
Rumo a Deus.

27/03/2018
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Wednesday, March 07, 2018

MULHER






“Fragile, opulenta donna, matrice del Paradiso”
Alda Merini


Não és assim tão frágil como dizem
Aqueles que espreitam ainda através
Das árvores do Paraíso, depois de tudo
O que se passou és um grão de dor
Nos olhos de Deus, o teu sexo fraco
- ainda dizem, É mais forte do que o nosso
A maravilha é que tu sabes chorar
E são as tuas lágrimas que ainda regam a terra.

07/03/2018
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Sunday, January 07, 2018

LITERATURA DO HOLOCAUSTO: PRIMO LEVI E VIKTOR FRANKL


O homem que é fundido na massa, que num campo de concentração não deveria dar nas vistas dos guardas SS, não sobressair em nada, tornar-se apenas num incógnito para tentar sobreviver algum tempo, é a temática de dois livros coincidentes.
“Se Isto é Um Homem”, de Primo Levi, e, de Viktor Frankl, “Um psicólogo no campo de concentração”.
Não há grandes mudanças nem novidades nas análises psicológicas dos deportados e encarcerados nos campos de concentração nazis de Auschwitz-Birkenau que o psicólogo Victor Frankl e o escritor e poeta Primo Levi fizeram, a partir do mesmo destino nesses campos, porque eram judeus.
O elemento comum que já a filósofa judia Hanna Arendt identificara, é a despersonalização dos indíviduos, o tornar os judeus, sobretudo estes, matéria descartável, abaixo de sub-humanos se cabe aqui o pleonasmo.

Um dos aspectos que Viktor Frankl evidencia no seu livro, no que concerne à despersonalização do indíviduo, é, por exemplo, o facto da nudez. É a primeira realidade dos prisioneiros que chegavam ao campo e antes de entrarem para um suposto duche nas câmaras de gás, o que significava não apenas “o não ter nada no corpo”, mas também o homem e a mulher intuírem ou terem mesmo a consciência de que “possuíamos apenas a nossa existência literalmente nua”.

Vão no mesmo sentido as palavras de Primo Levi, no que diz respeito à consciência de que perante os carrascos já não se tem nem corpo nem alma, podendo dizer-se o mesmo total vazio dos algozes: “Aqui recebemos as primeiras pancadas: e o facto foi tão novo e insensato que não sentimos dor, nem no corpo nem na alma. Só um profundo espanto: como se pode bater num homem sem raiva?”
Na contundente narrativa de Levi, lemos do completo despojamento de personalidade do prisioneiro judeu nos primeiros momentos entre a aglomeração num gueto, a deportação, a chegada ao Campo, o despojamento da individualidade e do pensar: “Soubéramos, com alívio, do nosso destino. Auschwitz: um nome sem qualquer significado, naquela altura e para nós; mas certamente devia corresponder a um lugar desta Terra.”

Do outro lado, da parte dos executores do maléfico plano de Eichmann, a chamada Solução Final que deveria eliminar a judiaria europeia, a própria despersonalização era evidente, já nem seria ideológica, era apenas a prossecução do Mal. Quantos mais “números” de uma raça tido como inferior e sem direito a existir eliminassem, tanto melhor. Nenhum dos guardas dos campos de concentração nazis era um burocrata, era tão só manobrador de uma maquinaria de morte, limitava -se a cumprir ordens, sim, mas tinha com certeza prazer nos sofrimentos que estava a infligir aos prisioneiros judeus e não apenas a estes? Os guardas e os oficiais SS estavam presentes e eram os agentes do Mal, ao contrário da banalidade entrevista na atitude de Adolfo Eichmann, julgado em 1962 e enforcado. Eram apenas monstros.

Monstros com consciência do Mal, do prazer em praticar o mal com uma razão, talvez por isto Hanna Arendt, judia, foi detestada pelos judeus porque viu em Eichmann, durante o julgamento deste, um homem banal. Um homem- nada.
Em Auschwitz, que é o cenário realíssimo de ambos os livros referidos, o ambiente era niilista. A vida humana estava reduzida ao Nada. Num lugar sustentado e representado pelo Nada.
Mas uma afirmação do filósofo alemão, Heidegger (1889-1976), não inibe esse Nada de responsabilidades: “Nada é sem razão”, escreveu em “Le principe de raizon” (Galimard, 1962).
Tudo tem uma razão para existir, nenhum efeito é espontâneo, tem sempre uma causa. Não foi o destino nem foram os deuses que fecharam para sempre num campo de concentração e extermínio judeus e outro género social de pessoas. O Prometeu, do grego Ésquilo, roubou aos deuses para auxiliar os homens, teve portanto uma causa para a razão do seu sofrimento, acorrentado a um penhasco, sofrendo tempestades e o fogo do sol ardente. Como em Auschwitz, as razões não tiveram sentido. Partiram de uma mentira, no que concerne aos judeus da Europa de Leste e Central até França. Alguém escreveu (o filósofo Wittengstein) que “a consciência de que se está a mentir é um poder ”. Foi isso que os SS exerceram em Auschwitz.
Primo Levi e Viktor Frankl narram não só o Mal, mas também não procuram nenhuma Razão, porque ela ali não tem sentido algum. E não o fazem sequer do ponto de vista filosófico, mas físico e psicológico.
Em ambos os livros há a sem razão de se morrer antes do tempo determinado, segundo o pensar humano, por exemplo no “Se isto é um homem”, Levi, escreve: ” Assim morreu Emília, que tinha três anos (ao desembarcar no Campo); porque aos alemães parecia evidente a necessidade histórica de matar os filhos dos Judeus”.
A imagem sem razão da morte estava sempre presente, até no simples facto “civilizado” do soldado SS perguntar às suas vítimas se não tinham dinheiro ou relógios para lhe dar, dado que elas “já não iriam precisar deles”.
Viktor Frankl tenta explanar este aspecto de um ponto de vista psicológico, usando esse instrumento para ver o que estava dentro da mente dos judeus. O autor propõe que a “ reacção do prisioneiro ao entrar num campo de concentração pressupõe um estado de ânimo anormal “, a propósito das reacções anormais das vítimas do Holocausto. Primeiro um “estado de choque”, que passa depois para ”uma relativa apatia” e, finalmente, “chega a uma espécie de morte interior”
As diferenças que se complementam entre os dois livros, residem em que no de Primo existe a despersonalização do individuo para a Morte, no de Frankl a despersonalização pela experiência do trabalho forçado, sem esperança, e que não livrava da Morte.

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Friday, December 08, 2017

DEPOIS DO NATAL

  


Depois da Festa e depois mais tarde
Dos pés adormecerem
No manto frio da noite no deserto, dos anjos
Que vieram depois trazer o pão do céu
E de nas margens do Jordão dar o exemplo
Da ressurreição e o baptismo da angústia
No Getsémani e de saber que um Deus
Pode suar gotículas de sangue, às vezes
Pensou no colo e no ventre da mulher
Que o trouxe ao mundo, depois do Natal
Mais tarde envolveria o seu corpo na mortalha
Outra vez no colo e nas mãos trémulas de Maria.

08/12/2017

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Monday, October 30, 2017

O ÚLTIMO SALMO




Por que caminhamos para a morte
Como ovelhas para o matadouro?
Por que fomos desamparados
Pelos pastores, como aqueles de quem
Os homens escondem o rosto?
Por que não fizeram de nossos filhos
Caso algum? Onde estava a assistência
Do mundo, o nosso quinhão dos verdes pastos
Só a lama onde houve ribeiros tranquilos
Quando caminhamos juntos, como ovelhas
Para o mercado da morte?

30/10/2017

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Sunday, August 27, 2017

A PROBABILIDADE DE SER POEMA




            «Eν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.»

Após séculos de discussão sobre o chamado problema da autoria do Quarto Evangelho, era moda na Alta Crítica dizer que o Jesus de João era o produto de um processo teológico oriundo da própria Igreja Primitiva, querendo negar assim a autenticidade histórica do autor João e do seu acompanhamento do Mestre, como um dos Doze. A era da crítica acadêmica foi aberta com os trabalhos de K.G. Bretschneider ( 1776-1848) no que concerne a autoria de Evangelho. Bretschneider questionou na sua obra sobre o Evangelho de João a probabilidade autoral ( in “Probabilia”).

Um paradoxo para chamar a atenção da própria a autoria apóstólica desse Evangelho, argumentando, pelo menos, sobre a topografia do autor que ele não poderia ter vindo da Palestina. Seguindo Hegel, houve também quem no século XVIII considerasse o Quarto Evangelho como um trabalho de síntese, isto é, do género de tese e antítese. O Evangelho de João foi chamado de “Evangelho Espiritual”, mas nunca um evangelho filosófico, ainda que iniciando-se de um modo que agradaria aos gregos.

Tais discussões sobre a autenticidade autoral estão agora mais serenas. Ainda bem porque podem abrir outros caminhos mais interessantes, deslocando-se para o que parece ser um poema inicial o Prólogo joanino.
É dado como historicamente certo que o Prólogo tenha sido uma necessidade para dar resposta às grandes questões do espírito no que concerne ao Cristianismo versus Filosofias gnósticas do Século I.
Estruturalmente, ele surge como um prefácio, mas as raízes de um certo lirismo, senão na forma pelo menos na fonética e no ritmo, estão lá.

No início do comentário ao Evangelho Segundo João, o tradutor de “Biblia - Novo Testamento” e dos “Quatro Evangelhos”, Frederico Lourenço afirma que “o texto grego (o Prólogo) não é um poema”.
De facto, a poesia em língua grega do Século I era, entre outros requisitos da poética, reconhecida pelas unidades rítmicas, o que não é o caso do 1º verso, mas o nosso ouvido – também afirma FL- reconhece uma certa musicalidade, um certo ritmo pela combinação de algumas palavras. Lido o versículo em causa, quer na língua grega, quer na nossa própria língua, há um ritmo inegável.

No que diz respeito ao texto grego, aprecie-se o primeiro grupo (Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος) que é combinatório com a última expressão (καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος) Esta última linha completa a primeira, à qual regressa.
“No princípio era o Lógos / (…) / E era Deus o Lógos”. Expressão nossa para não fugir à melopeia e à quase poética pelo ritmo. Existe aqui uma unidade rítmica e melódica, uma linha de poema. No fundo o verso (versu, vertere), na sua concepção milenar, acaba por ser uma tautologia, algo que começa e retorna ao ponto inicial, porque verso designa um movimento de regresso.
Contudo, quer este verso inicial quer todo o conjunto do Prólogo joanino não é, como se chegou a pensar, um poema para agradar ao Gnosticismo. Nem visto apenas à superfície do texto, nem atomisticamente.
Uma quantidade imensa de material riquíssimo é o que encontramos nos primeiros 18 versículos do Prólogo de João.

A “Encyclopedia Americana resume, no que concerne ao Prólogo, várias páginas de douta e vasta bibliografia sobre o tema, e afirma a influência grega que o Evangelista teve, tornando-se evidente que “os primeiros versos são obviamente um poema à maneira dos Estóicos”. É, contudo, uma conclusão que, do ponto de vista da Poética seja ela de Aristóteles ou, posteriormente, de Horácio, não resiste a uma análise, como vimos, dos constituintes do poema. Mais certo será afirmar que o Prólogo se apresenta sob a forma de “um hino cantado na comunidade joanina (em Éfeso?), antes de ter sido colocado como início do Evangelho”. A beleza e a estética dos primeiros cinco versos (1-5 inclusivé), estão lá, porque abrem as portas da Eternidade para dar passagem ao Verbo ou Lógos que vem até ao Homem, até a pungência do Tempo. ©